quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Ao viajar

De pé na estação, alheia ao ruído do ambiente, só consigo pensar em você. Cada ônibus que chega traz a doce ilusão de que você aparecerá e me surpreenderá, indo comigo aonde quer que eu vá.

Tanto a dizer, mas as palavras desaparecem na sombra do meu desejo; tantos sentimentos que turbilhonam no meu peito enquanto busco um fôlego extra que não vem. A música que toca nos fones de ouvido fala diretamente a mim, traz sua voz perdida entre os versos. E continuo esperando...

A plataforma enche, o ônibus chega mas você não. Ainda assim, alimento a esperança insana de ver você correndo, no último minuto, me alcançando num beijo incontido, extravasando a emoção guardada tão fundo e por tanto tempo.

Devaneios de quem viaja à noite, eu sei; loucura de um coração que deseja sem poder, que aguarda na bifurcação da estrada para tomar sua mão e seguir rumo ao destino há tanto aguardado, há tanto adiado.

terça-feira, 10 de novembro de 2015

Entardecer


O sol se deita, e amanhece meu desejo.
Brilha alto no meu peito, aquece o tempo,
Incendeia os sentidos, apaga a razão.

A brisa da noite é fresca como o seu respirar,
Acalenta meus cabelos como seus dedos,
Beija minha pele como seus lábios.

No decorrer das horas
Entardecer, noite e desejos se misturam e se complementam.
Corpos se entrelaçam contando uma história
Sem palavras e sem tempo.

E adormeço em seus braços desejando
Que o sol não se levante,
Que apenas aguarde
Enquanto nos observa, entregues, em paz.



sábado, 5 de julho de 2014

Sobre cavernas, Platão e o conhecimento

Não sei se é algo que acontece à medida em que envelhecemos ou se simplesmente existe um botãozinho lá nas profundezas do córtex temporal, esperando para ser ativado e criar conexões entre assuntos totalmente díspares. Você faz as mesmas coisas de sempre, persegue o conhecimento com a sede de quem está perdido no mar há mais de um mês, e a vida segue normalmente. Mas de repente, aquelas referências que aparecem por frações de segundos em filmes e livros (que são usadas pra preencherem as lacunas dos roteiros e tornarem o pensamento do personagem mais linear), e que na maioria das vezes passam completamente despercebidas ao expectador, passam a se repetir cada vez mais e sob temas heterogêneos, até conseguirem atrair atenção suficiente sobre si. Aí, num belo dia, você se pega agarrada em um trecho de mais um dos livros do mês, e não consegue sair dali até lembrar onde foi que você viu aquela referência sendo usada. É uma mistura de déjà-vu com a sensação de ter perdido as chaves dentro de casa. É claro que ler compulsivamente ajuda, porque quanto maior a quantidade de informações recebidas, mais material o cérebro tem para trabalhar. Mas não deixa de ser esquisito e intrigante.

Estranho ou não, as mensagens mais inusitadas aparecem nos livros. Há correntes esotéricas que dizem que todas as respostas do universo podem ser encontradas nos textos mais simples: basta fechar os olhos, mentalizar, abrir uma página ao acaso e BAM!, lá está a resposta. Eu particularmente acho que essa crença não passa de mais um exercício de interpretação. Se você estiver num dia propício, vibrando na harmonia certa, até o rótulo do shampoo poderá trazer respostas aos seus questionamentos internos.

Foi justamente em um dia comum que apareceu a alegoria da caverna de Platão. Trata-se de uma das passagens mais clássicas da Filosofia, e não me perguntem como eu sei disso - minha memória age de formas misteriosas (parafraseando Shakespeare). No período de um mês, eu encontrei a mesma referência em três livros de épocas e gêneros totalmente distintos (entendam: eu leio tudo o que aparece na minha frente, variando da poesia do século XVIII  ao Sci-fi, passando lindamente por romances históricos, livros de auto-ajuda e ficção criminal, que é de longe a minha preferida). No meio de um livro sobre vampiros, muito bom por sinal, estava lá. De novo. Então, como não poderia deixar de ser, parei o livro e fui estudar mais um pouco sobre a bendita alegoria de Platão, que me perseguia. Foi uma das melhores pausas que já fiz.



A parábola da caverna é uma das mais bonitas alegorias à busca do conhecimento que eu conheço. É simples, mas seu conteúdo está repleto de simbologia. Com ela, podemos nos ver a todos, nos mais variados estágios da superação da ignorância, assim como aqueles que insistem em permanecer na mesma. É uma forma eficaz de mostrar a necessidade de sairmos da zona de conforto para buscarmos o que não compreendemos, não nos limitarmos às sombras da caverna, que são apenas interpretações simplistas da realidade.

Buscar a luz do sol é uma simbologia que se encaixa também no nascimento - sair da caverna rumo ao desconhecido é renascer em uma nova perspectiva de vida, é deixar na escuridão aquilo que não serve mais. Porém, como todo animal gregário, o indivíduo quer voltar para tentar trazer seus semelhantes consigo, e mostrar-lhes o que perdem mantendo-se na ignorância, mas percebe que eles se recusam a abandonar a falsa sensação de segurança que a limitação traz. O ponto culminante da parábola é a luta interna que o indivíduo trava consigo, ao tentar abraçar o novo sem contudo abandonar completamente suas origens; e é exatamente esse apego que o acaba matando no final.

A morte pode ser simbolicamente entendida como o rito de passagem onde o indivíduo definitivamente precisa abandonar o que o acorrenta para buscar a plenitude, caso contrário poderá acabar sufocado em seus próprios receios e limitações. Pode significar também, por outro lado, a desistência da evolução: o indivíduo abandona o projeto de lançar-se ao mundo novo que acabou de conhecer para manter-se em companhia dos que lhe são caros, mas que estão acomodados na ignorância. Ele sufoca seus anseios e se resigna à escuridão, por não conseguir mostrar aos seus como o exterior da caverna pode ser mais promissor, como o conhecimento em si pode levar a conquistas muito maiores.

Na análise desta parábola de Platão, é também necessário refletir acerca do que entendemos por verdade, suas diversas facetas e interpretações, e o quanto dela nos é permitido ver dentro das nossas "cavernas"; até que ponto os objetos que projetam as sombras nas paredes são igualmente percebidos por outrem, e o que escapa aos nossos sentidos.

O exercício da Caverna de Platão deveria ser ensinado e praticado desde a infância, em todas as esferas da educação formal. Talvez assim houvesse menos rótulos aplicados aos que aprendem e se deslocam entre os ramos da Árvore do Conhecimento de forma pouco convencional. Seria também uma excelente maneira de exercitar a tolerância, uma forma de apagar preconceitos, e mais do que nunca formar conexões entre indivíduos de cavernas diferentes.

Não podemos esquecer: as sombras que dançam nas paredes de uma caverna podem ser tão somente as projeções da caverna em frente. Mas no fim das contas, só poderemos saber o que está lá fora se não tivermos receio de dar o primeiro passo em direção à luz.

Einstein já dizia: "A mente que se abre a uma nova ideia jamais voltará ao seu tamanho original".


Se você nunca ouviu falar sobre a Caverna de Platão, mas tem curiosidade em saber mais, pode ler aqui.     

quarta-feira, 25 de junho de 2014

Começando...

Assumo que já há muitos anos venho flertando com a possibilidade (e necessidade) de começar a escrever algo que, de alguma maneira, possa se tornar público. Porém, um misto de vida corrida, péssima disciplina e desorganização mental me fizeram adiar este desejo até que não coubesse mais no peito (e no pensamento). Acredito que é chegado o momento em que se faz mandatório deixar que escapem de seus recônditos as vozes que narram, comentam e criticam todos os aspectos do cotidiano que me cerca, para que se lancem e bradem o que já vêm sussurrando há longo tempo. 

É por isso que, finalmente hoje, inicio essa tentativa de blog. Minha intenção é conseguir chegar ao ponto onde minhas insanidades possam tomar a forma de palavras, e os vários universos paralelos que me habitam o pensamento possam enfim ser visitados por outros.

Por este motivo, e é claro com uma pitada generosa de preferência particular, escolhi para o primeiro post um poema de que gosto muito, escrito por Fernando Pessoa sob o pseudônimo de Alberto Caeiro. Ele sabia, como poucos.

Boas leituras.